A DELICADA ARTE DE ENSINAR

        Quando a gente recebe um presente de alguém, ou um favor qualquer, o sentimento que deve vir à tona é o da gratidão. Principalmente em se tratando de aluno em relação ao seu educador.

        Certa vez, quando eu era criança, percebi que minha professora de inglês tinha escrito uma palavra errada no quadro negro. Eu a chamei baixinho e perguntei-lhe se não havia se equivocado quanto a uma letra. Ela olhou e detectou imediatamente o erro. Agradeceu-me e corrigiu em seguida. Nem ela nem eu fizemos qualquer tipo de alarde. Meus colegas nem perceberam. Mas eu fui bem educada e aprendi desde a minha iniciação escolar que não se deve constranger ninguém em público, muito menos  uma criança chamar a atenção de uma pessoa adulta de forma ignorante e debochada. Mas, aqueles foram outros tempos. Não é o que se percebe hoje em dia .

        Se o professor dá uma nota faltando décimos para a nota máxima, o aluno abusado quer saber que tipo de critérios o professor usou para avaliá-lo abaixo de 10. Ou quer que o professor aponte onde está o seu erro nesta ou naquela questão.  Ou ainda quer bater pé insistindo que a resposta errada está correta. Sim, tem alunos de todos os tipos. E o pior tipo não é o que fica conversando durante a aula. Nem o que fica tentando fazer cola durante os exames finais  porque realmente não estudou ou está em dúvida. Não é o que fica jogando aviãozinho de papel em quem está lá na frente nem o que fica mexendo no celular por baixo da classe.  O pior tipo de aluno é  o que pensa que sabe tudo; o que se considera mais inteligente que  o professor; o que pensa  ter condições de ensinar os próprios colegas; o que classifica a aula como sendo enfadonha. E o que dizer do estudante que qualifica o recreio como a melhor parte da aprendizagem?  Esse é o pior tipo de aluno.  Infelizmente, não adianta a gente tentar enfiar nessas cabeças que vivem no mundo da lua as noções básicas de respeito a autoridade porque isso começa dentro do próprio lar e se estende pela vida afora. O jovem que não aprende em casa com amor  vai aprender  na rua pela dor.

        Desde o primeiro instante em que coloco o meu olho clínico numa turma, consigo perceber quando existe em meio a maioria, alguém que esteja  disposto a impressionar a mim e aos demais. Mas, apesar de todo o seu empenho, eu não me impressiono  pois estou acostumada a lidar com todo o tipo de pessoas e noto de longe quando alguém quer parecer mais do que realmente é. Não adianta nada aparecer diante de mim com livros de grandes filósofos, historiadores ou o raio que o parta porque eu sei que isso não significa que o leitor dessas obras esteja entendendo a leitura complexa na qual mergulha ou faz de conta que se aprofunda em conhecimentos empíricos. Se eu quisesse fazer essa criatura passar vergonha, bastaria pedir-lhe que falasse sobre o assunto do qual trata este ou aquele volume. Mas, como eu não sou assim, prefiro continuar fingindo que acredito no seu desempenho espetacular e na sua capacidade de interpretação.

        Eu tenho o meu método de ensinar. Ninguém é obrigado a aprender comigo. Se eu não dou nota máxima é porque eu acho que o aluno ainda não está bem o suficiente para isso nem é tão bom quanto pensa ser. Quando eu estava na Faculdade, tive um professor muito exigente que não nos deixava ir embora sem que antes entregássemos umas 10 linhas escritas sobre qualquer tema a nossa escolha. E a minha nota não passava de 6. Um dia eu quis saber o porquê, já que no Colégio minha média ficava altíssima. Daí ele me pediu que olhasse as notas dos meus colegas e comparasse com as minhas. As notas variavam entre 1,5 e 3,5. A minha era a mais alta mesmo. Voltei a falar com ele sem entender. Ao que me respondeu que o 6 que ele  me dava era equivalente ao 10. Nunca mais o importunei por esse motivo. Senti-me ridícula ao me preocupar com tão pouco. E cada vez que eu me deparo com alunos brigando por causa de pontos na média, me lembro desse período.

        Nem todo mundo que aprende a Língua Portuguesa vai ser escritor. Para ser escritor tem que ter dom. Tem que ter conteúdo que gente vazia nem sabe o que é e nem para que serve. Tem que ter experiências porque é isso que torna o conteúdo interessante. Não acredito em oficinas literárias como formadoras de escritores. Eu aprendi a escrever sozinha. No Colégio, tive aulas de redação e o resto ficou por minha conta. Eu posso orientar um por um mas a tarefa de escrever é individual.

        Aprender a escrever bem é fundamental para qualquer área da vida adulta. Quem tem um bom vocabulário, que sabe se expressar vai longe em qualquer atividade que venha a exercer.  Mas, por mais longe que um indivíduo possa ir na tentativa de conquistar os seus objetivos, de nada valerá o seu sucesso se ele não tiver a humildade sincera, não a falsa modéstia, porém, a verdadeira humildade para reconhecer que se ele chegou ao topo foi porque alguém o ensinou a dar os primeiros passos, as primeiras orientações, o primeiro estímulo para essa grande caminhada. E que quanto mais se caminha, mais se percebe o quanto somos pequenos e que ninguém é melhor que ninguém nessa etapa evolutiva.

                                     

                                                                             Elisabeth Souza Ferreira

FOSFOETANOLAMINA SINTÉTICA

          Há alguns anos, eu estava assistindo um noticiário de TV e ouvi uma rápida reportagem sobre uma possível cura para o câncer que estava sendo testada em Berlim, na Alemanha. Um paciente em fase terminal de câncer e aids teria aceito, na ocasião, servir de cobaia para uns experimentos médicos, tomando assim um coquetel com uma droga desconhecida. Para surpresa de todos, esse homem reagiu muito bem ao tratamento e ficou curado de ambas as doenças que o acometiam. Essa notícia circulou apenas um dia e foi abafada por completo. Não me recordo agora o nome da substância que tinha sido usada no tal paciente. Mas, lembro-me muito bem que ao final da nota, o repórter falou que esse medicamento não estaria disponível no mercado até que fossem feitos todos os estudos necessários que comprovassem a eficiência do método empregado naquele homem da Alemanha. E que isso levaria mais ou menos uns dez anos. Agora, diante dessa polêmica sobre a fosfoetanolamina sintética ser liberada ou não para o tratamento do câncer, voltou a minha memória aquela notícia que havia passado na TV. Não sei se é a mesma substância ou se não tem nada a ver mas acredito que tudo o que possa aliviar ou curar uma doença grave deve ser colocada a disposição para quem puder e quiser fazer uso da mesma.

          Toda tentativa é válida nesse sentido. Se tem ou não efeitos colaterais, não sabemos. O tamoxifeno que é a base da quimioterapia produz inúmeros efeitos colaterais danosos principalmente ao fígado e nem por isso deixa de ser utilizado nos pacientes em doses maiores ou menores conforme a prescrição médica. Espero que as pessoas sejam menos egoístas e ajudem para que em breve possamos ter liberdade de uso dos medicamentos novos que estejam surgindo no mercado, ainda mais sendo para combater doenças que tanto castigam a humanidade. Ninguém ficará mais pobre se isso acontecer. Os profissionais são muito dinâmicos e saberão usá-las corretamente para aliviar o sofrimento alheio sem deixar de ganhar pelo trabalho que prestam em favor da Medicina. Aconselho quem tiver um tempinho, pesquisar sobre o assunto. Quanto mais pessoas estiverem engajadas nessa luta, mais força existirá para combater o mal. Quem já não perdeu algum parente ou amigo para essa doença terrível? E saber que, talvez, hoje ela ainda estivesse entre nós? Inúmeras pesquisas vêm sendo realizadas nesse sentido. No mundo inteiro. Aqui no Brasil houve um cientista em São Paulo que criou o medicamento tão esperado por todos. Seu desenvolvedor é um professor aposentado da USP, chamado Gilberto Orivaldo Chierice que há mais de 20 anos vinha se dedicando a esse estudo. Desde os anos 90 , as cápsulas estavam sendo distribuídas gratuitamente no campus da Universidade de São Paulo para quem quisesse experimentá-la uma vez que fosse comprovadamente ser portador de algum tipo de câncer. O tratamento prometia eliminar as células cancerosas sem nenhum efeito colateral. Mas, em 2014, foi exigido pela Lei que todas as drogas experimentais fossem registradas antes mesmo da população começar a fazer uso da mesma. Sendo assim, os pacientes que quisessem ter acesso ao medicamento só poderiam consegui-lo mediante ordem judicial, já que a Anvisa não concedia licença para liberá-la sem as devidas análises clínicas. Chegaram a alegar que ela não era eficaz para a cura do câncer, mesmo com o depoimento de centenas de pessoas que se mostravam saudáveis após ingerirem as cápsulas e sem nenhum efeito colateral.

          Infelizmente, existem muitos interesses por trás disso pois os grandes Laboratórios perderiam muito dinheiro caso a cura para o câncer fosse descoberta. Após enfrentar inúmeras perseguições, o professor acabou vendendo a fórmula para os Estados Unidos, segundo as últimas informações que eu tive. Amanhã ou depois, os méritos pela grande descoberta serão americanos e não brasileiros.

          Conheci há pouco tempo uma grande guerreira, mulher de fibra que conquistou o seu espaço também na luta contra um tumor cerebral e que vem se beneficiando tão somente com o uso desse medicamento, pois com ele vem conseguindo se manter saudável, trabalhar e cuidar de sua família, sem efeitos colaterais próprios da quimioterapia. Outros, talvez, não tenham tido a mesma sorte por lhes ter sido negado acesso a esse recurso científico. Portanto, apesar de os mais letrados seguirem com a discussão de que esse medicamento faz parte de charlatanismo e não produz o efeito desejado nos pacientes com câncer, é grande o número de pessoas que recuperaram a saúde e a auto-estima, confiando apenas na fosfoetanolamina sintética.

          Esperamos que, com o passar do tempo, essa burocracia diminua e sejam facilitados todos os meios de tratamento possíveis para quem esteja sofrendo os dissabores de alguma doença incurável, uma vez que todo ser humano tem o direito de buscar a própria cura, seja acreditando num medicamento importado e caro, seja numa cápsula simples e barata que ainda não tenha sido registrada oficialmente.

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